Publicado por: Lara França em: 27 27UTC Julho 27UTC 2010
Tenho uma predisposição natural para o que dura. Filmes longos, longos romances. Valsas lentas, livros extensos, amizades eternas. Gosto do gosto do que é conhecido e repetitivo. Gosto da rotina. Talvez por isso eu sofra tanto com essa exigência dos dias atuais, de sempre ser outra, sempre estar em mudança, sempre nessa tentativa de adaptação que apenas consome tempo e causa tantas patologias. Sou grata quando as pessoas me poupam desse esforço. Quando permanecem e me deixam permanecer. Quando me encontram no outro dia no mesmo lugar, quando mantêm o mesmíssimo humor, quando continuam com aqueles velhos tiques, velhas manias, velhos sonhos…
Eu, quando o tempo passa, vejo que apesar de tudo ser tão novo, é ainda algo muito familiar. É um sentimento de que tudo ao redor – inclusive as pessoas – seguiu comigo, mudou comigo, esteve comigo nesse processo de mudança (e por isso, talvez, não tenha sido um processo tão difícil). Gosto mesmo é de acordar e dormir no mesmo horário, comer sempre a mesma comida. Não sou do tipo que gosta de experimentar. Sou uma pessoa que não se incomoda com o que é antigo, velho, permanente.
Não é que eu tenha medo da mudança, do novo, até porque isso é inevitável, mas é que eu tenho gosto pelo que vai na contramão. Não tenho vocação pra viver correndo atrás de inovações, atrás da moda que muda a cada dia. Não tenho a mínima vocação para estar sempre alimentando a roda da mudança, sinto muito, mas provavelmente amanhã você vai me ver com o mesmo cabelo liso escuro, o mesmo peso, com a mesma roupa que usei na semana passada, a mesma antiga mania de analisar as coisas… Meu ritmo é lento e respeito a minha natureza.
Talvez, dentro de mim tudo seja agitado, confuso, intenso – e até isso eu conheço tal qual é desde muito tempo. Gosto de conversas longas, gosto de olhares profundos e intensos, gosto de relações que perduram no tempo. Gosto de criar raiz. Não tenho medo de compromisso, de me doar. Não tenho medo do que vai envelhecer comigo, nem dos anos que virão e, embora eu saiba bem que esse mesmo tempo estará estampado na minha face, ainda assim, ao me olhar no espelho, encontrarei algo em mim que foi preservado desde a infância. Eu gosto mesmo é do velho gosto da novidade do que eu já sei de cor: a vida.
Talvez goste tanto da rotina porque não tenho capacidade de inovação. Nunca consegui ser outra. Não tenho vocação para pintar o cabelo da cor da moda, para ir aos lugares só porque todo mundo vai, não tenho vocação nenhuma para a adaptação a meios que exigem de mim uma rapidez de associação e resposta maior do que minha natureza – lentíssima – permite. Gosto de almoçar com minha família todos os dias, de fazer a mesmo almoço nos domingos, de sair nos mesmos horários e de estar com as mesmas pessoas. O que a maioria das pessoas acha chato; eu acho o máximo!
As pessoas confundem mudança com crescimento, confundem movimento com ação. Eu não. Sei que embora minhas amizades durem a 10 anos e meus hábitos não sejam mudados a séculos…certas coisas permanecem enquanto mudam. Assim aconteceu comigo e com a maioria das pessoas. Algumas se aborrecem ao perceber que nada mudou, e isso as causa uma tensão muito grande, mas outras, como eu, gostam de criar um chão sólido para continuar caminhando lentamente…enquanto tudo vai mudando.
04/09/2009
1 | aquilesxx
8 08UTC Junho 08UTC 2011 às 9:58 pm
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