~*Mundo~Surreal*~

poema

Posted by: Lara França on: 12 12UTC Setembro 12UTC 2009

Minha pedra de gelo derretendo

derrama sobre mim teus segredos

proclama meu nome contra o vento

me evita quando necessário

chora pra mim teus lamentos

e sempre, em qualquer tempo,

faz dos meus braços teu alento,

me dá tua mão quando peço,

me oferece teu silêncio…

 

Faz da tua ausência meu segredo

e, em silêncio, me atiça a paixão.

Aparece em meus sonhos,

faz brotar em mim um sorriso.

Canta pra mim a luz do dia,

me fala de amor e magia,

me dá tua mão, tua vida,

meu pássaro dourado,

não fuja de mim.

 

 

10/08/2009

SIM

Posted by: Lara França on: 29 29UTC Agosto 29UTC 2009

Disse sim. E então se calou, como se tivesse dado uma resposta sem muito pensar. Mas afinal, quem pode determinar qual o tempo certo?

Disse sim, e pronto. Sem dor. Sem meio-termos. Sem ’se’.

Disse sim, de uma forma, enfática, sábia e desafiadora.

Disse sim, como se utilizasse essa palavra como espada, como escudo, como se ao atacar se defendesse.

Disse sim, simplesmente, com significado de sim. Sim para a vida, para o amor e o medo, para o silêncio, para o choro, para o riso.

Disse sim, pra ela mesma, para os desejos, para os erros, para a solidão inerente da sua condição. Disse sim, porque já não aguenta tanto ‘nãos’.

E disse sim, para a espera calma, para o amor em segredo, para a manhã morna dos domingos.

Sim para a mesa posta, para o filme que faz chorar, para o livro que fala sobre morte.

Sim para ele. Sim para todo o contraste entre o branco e o preto.

Sim para a meditação. Disse sim ao meio termo, ao almoço sem sal, ao sonho perturbador, a tensão do dia-a-dia em consciência.

E pensou mais tarde, que por aceitar assim, tão facilmente as coisas da vida, pudesse acabar se arrependendo.

E talvez se arrependesse mais tarde, de não ter dito, de ter aceito o silêncio longo demais.

Talvez, se arrependesse de ter aceito a distância, a separação, a não confissão dos sentimentos.

Mas, afinal, quem poderá saber o caminho certo a seguir?

Ela disse sim. E a vida se abriu como uma flor na primaveira, tão natural e bela, que, às vezes, acreditava que essa sua sintinia com o UNO a faria maior do que é.

E certamente, sentia dentro de si, esse sim, mudando as vírgulas, fechando cicatrizes, adoçando seus espaços amargos, protegendo seus segredos.

Disse sim, como se a vida fosse muito curta para esperas e silêncios. Como se fosse longa demais para a saudade insuportável.

Disse sim, calada. E num abraço, celou com o tempo um acordo intímo.

Disse sim, mais uma vez. Sim para o que vier…

E quem poderá saber o que virá?

29/08/2009

hsu

Posted by: Lara França on: 15 15UTC Agosto 15UTC 2009

i_ching_05_hsu espera

HSU*

‘A espera não é uma esperança vazia, possui a certeza interior de alcançar o seu objetivo.’

 

* Hsu é um Hexagrama do I Ching – significa A ESPERA.

História II

Posted by: Lara França on: 9 09UTC Agosto 09UTC 2009

 

Maos-PB

Já passava das duas horas da madrugada, ele estava ali, ligado, acesso, inquieto. Precisava dizer a ela, precisava se expor, precisava se arriscar. Pensou mil vezes no que dizer, mas não sabia. O uísque no copo intocado, o cigarro queimando sozinho no cinzeiro. Ele precisava se declarar. Pegou papel e caneta: escreveria agora, já, nesse instante.

‘Meu amor’, e a palavra ‘amor’ lhe doeu cedo demais. ‘Preciso lhe dizer que desde aquele dia, aquele dia em que nos conhecemos sem querer, e eu nem sabia quem você era. Aquele dia, o jeito que me olhava e sorria, tudo naquele dia, me dizia pra te amar. Tua voz era certa, teu gesto era certo, teu sorriso certíssimo!! Tudo conspirando a nosso favor, tudo me dizendo: ame-a. E eu amei, meu amor. Te amei cedo demais sem saber, que você seria minha prisão, minha dor, meu desafio, meu inimigo revelado: você seria meu impossível amor desejado. Mas eu amei, meu amor. Mais do que pude, mais do que devia, entre nossos silêncios e conversas, te amei em cada olhar. Te amei, na vontade louca de tocar a tua mão que estava ali, diante de mim, avulsa, e que eu lutei contra o tempo todo, por não querer quebrar esse desejo inconfessado que sempre me tomou. Te amei, calma e urgentemente. E amando, ainda hoje, te deixo, assim tão quieta, tão sua, na sua vida sem mim. E sigo, ausente de tudo da sua vida, longe, distante do seu sorriso e do seu olhar, amando ainda, amando sempre, amando agora.’

Não conseguiu terminar sem deixar cair uma lágrima. Não conseguiu terminar sem abandonar-se naquele sentimento antigo e novo a cada dia. Não conseguiu terminar com aquele sentimento, não conseguiu dizer nada mais do que pode ser dito… Ele deixou-se chorar, deixou-se sofrer…um amor impossível e nada mais.

09/08/2009

história I

Posted by: Lara França on: 26 26UTC Julho 26UTC 2009

Shower

Estava lendo Goethe enquanto Ian dormia em seu peito. Às vezes, ela parava de viajar naquelas palavras hipnotizantes para acariciá-lo e observar como dormia profundamente e aconchegado. Essa sensação de amor intenso era um segredo que só ela conhecia – pensava. Era sábado e nada a tiraria daquele conforto. Seu filho ali, compartilhando com ela um momento único. Ela não sabia que ali perto alguém a observava.

Ele olhava aquela cena e desejava fazer parte daquilo tudo. Parte daquela história. Queria ser pai daquele menino que dormia calmante no peito daquela mulher que ele passara a amar. Não sabia direito explicar porque se apaixonara. Pensou que era pelo modo amoroso com que tratava o filho, porém, a beleza dela também saltava aos olhos. Lia muito e esse podia ser um fator de peso, sempre gostara de ler, e por isso, sentia-se quase intimo daquela mulher desconhecida. No fundo ele sabia que aquela mulher do outro lado da rua, mãe daquele menino, era apenas uma ponte com a imaginação. Era sua fuga. E por isso ele se deixava ficar ali, durante longas horas, observando aquele ritual de final de semana: brincavam juntos, entravam em casa para fazer algo que ele tentava adivinhar, voltavam para a sacada, deitavam na rede, ela sempre com um vestido que o fazia a desejar cada vez mais, um livro sempre em mãos e o menino, que prontamente deitava em seu colo para tirar seu habitual cochilo.

Ela lia. Às vezes, seu pensamento fugia para algum lugar distante dali, movida pelo livro, por alguma lembrança despertada por aquelas palavras. O pensamento escapava de repente, e ela voltava para a sua realidade. Olhava para Ian, sorria. E permanecia entregue àquele sábado de sol.

Ele, olhava, sonhava, sentia. E, às vezes, olhava em volta e não se reconhecia. Sentia, às vezes, que nem a roupa que vestia parecia sua. Ele era um corpo estranho para si mesmo. Ele queria atravessar aquela rua, perguntar o nome dela, conversar sobre o livro que ela estava lendo, confessar-lhe a sua vida, dividir aquele amor… Era assim a vida deles: dividida.

Bastava atravessar a rua, bastava dizer uma palavra, bastava um gesto…bastava quase nada… Ele sentia medo, porque o impossível – viver aquele amor intenso – significava perder toda a segurança das escolhas que havia feito. Dava medo dar o primeiro passo, dava medo a possibilidade de uma vida nova, dava medo aquela possibilidade de felicidade.

E ela continuava lendo profundamente…

 

24/07/2009

O TEMPO DE CADA UM

Posted by: Lara França on: 6 06UTC Junho 06UTC 2009

O TEMPO DE CADA UM

‘Prefiro andar sem relógio. Usar pra quê? Quase nunca é a mesma hora em mim e nos outros.’

Se eu parto, ele chega. E se eu decido ficar, ele faz as malas. Quando falo, ele não está, e se paro, ele continua a tagarelar. E assim os nossos dias vão… Se espero, ele não lembra de voltar. E quando eu canto ele não quer nem dançar. Se eu corro, ele não tem pressa de chegar. E quando eu choro, ele acha graça de eu não conseguir ser mais feliz… Eu sou não gosto sol, ele é de lua. Se eu quero festa, ele prefere solidão. E se eu quero música, ele quer silêncio. E quando eu escrevo, ele vem querendo mais daquilo tudo que era novo. Se eu não vou, ele vai. Se eu como, ele jejua e pede mais. Se eu me convenço, ele briga. E se questiono, ele entristece. Eu sou terra, ele é instável como a água. Se tenho fé, ele é cético. E quando duvido de tudo, ele quer que eu reze mais. Quando chove, ele faz sol e meu olho brilha diante dele. Se, às vezes, a gente briga, é só porque não se encontrou naquele dia. E se ele vier um dia, talvez, eu esteja já esteja perdida. Eu digo sim, ele não quer, não. E se eu dirijo mal a minha vida, ele sabe dar em tudo opinião. Quando amo, ele me odeia. E se fico muito tempo longe dele, ele me busca e me quer. E quando a água bate na pedra, ele quer me afogar. E se o tempo passa, ele para. E quando deixo ele partir, ele olha pra trás. E se sorrio, ele segue pra nunca mais… Se falo alto, ele cora. E quando é tarde, ele vai dormir… E na hora de acordar, ele quer sonhar. E se eu sigo uma estrada reta demais, ele quer mudar. E quando sonho demais, ele me pede pra parar. E se fico até mais tarde, ele diz que precisa ir. .. Eu sou eu, ele é ele. Dia e noite. Claro e escuro. Dois perdidos no mundo de si mesmos. Ele vai, eu fico. Eu quero rápido, ele é lento. Eu sou vento, ele é brisa. Mas quando a gente fica junto, esses choques nos tornam vivos.

06/06/2009

A alma dos diferentes

Posted by: Lara França on: 28 28UTC Maio 28UTC 2009

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A Alma Dos Diferentes - Artur Da Távola

 

… Ah, o diferente, esse ser especial!

Diferente não é quem pretenda ser.

Esse é um imitador do que ainda

não foi imitado, nunca um ser diferente.

 

Diferente é quem foi dotado

de alguns mais e de alguns menos em hora,

momento e lugar errados para os outros.

Que riem de inveja de não serem assim.

E de medo de não agüentar,

caso um dia venham, a ser.

 

O diferente é um ser

sempre mais próximo da perfeição.

O diferente nunca é um chato.

Mas é sempre confundido

por pessoas menos sensíveis e avisadas.

Supondo encontrar um chato

onde está um diferente,

talentos são rechaçados; vitórias, adiadas;

esperanças, mortas.

 

Um diferente medroso, este sim,

acaba transformando-se num chato.

Chato é um diferente que não vingou.

 

Os diferentes muito inteligentes

percebem porque os outros não os entendem.

Os diferentes raivosos acabam

tendo razão sozinhos, contra o mundo inteiro.

Diferente que se preza entende

o porque de quem o agride.

 

Se o diferente se mediocrizar,

mergulhará no complexo de inferioridade.

O diferente paga sempre o preço de estar

- mesmo sem querer – alterando algo,

ameaçando rebanhos, carneiros e pastores.

 

O diferente suporta e digere

a ira do irremediavelmente igual:

a inveja do comum; o ódio do mediano.

O verdadeiro diferente sabe que nunca

tem razão, mas que está sempre certo.

 

O diferente começa a sofrer cedo,

já no primário, onde os demais de mãos dadas,

e até mesmo alguns adultos por omissão,

se unem para transformar o que é

peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura.

 

O que é percepção aguçada em:

“Puxa, fulano, como você é complicado”.

O que é o embrião de um estilo próprio em :

“Você não está vendo como todo mundo faz? “

 

O diferente carrega desde cedo

apelidos e marcações os quais acaba incorporando.

Só os diferentes mais fortes

do que o mundo se transformaram

(e se transformam)

nos seus grandes modificadores.

 

Diferente é o que vê mais longe

do que o consenso.

O que sente antes mesmo

dos demais começarem a perceber.

 

Diferente é o que se emociona enquanto

todos em torno agridem e gargalham.

É o que engorda mais um pouco;

chora onde outros xingam;

estuda onde outros burram.

Quer onde outros cansam.

Espera de onde já não vem.

Sonha entre realistas.

 

Concretiza entre sonhadores.

Fala de leite em reunião de bêbados.

Cria onde o hábito rotiniza.

Sofre onde os outros ganham.

 

Diferente é o que fica

doendo onde a alegria impera.

Aceita empregos que ninguém supõe.

Perde horas em coisas

que só ele sabe ser importantes.

Engorda onde não deve.

Diz sempre na hora de calar.

Cala nas horas erradas.

Não desiste de lutar pela harmonia.

Fala de amor no meio da guerra.

Deixa o adversário fazer o gol,

porque gosta mais de jogar do que de ganhar.

 

Ele aprendeu a superar riso,

deboche, escárnio, e consciência dolorosa

de que a média é má porque é igual.

Os diferentes aí estão:

enfermos, paralíticos, machucados,

engordados, magros demais,

inteligentes em excesso, bons demais

para aquele cargo, excepcionais, narigudos,

barrigudos, joelhudos, de pé grande,

de roupas erradas, cheios de espinhas,

de mumunha, de malícia ou de baba.

Aí estão, doendo e doendo,

mas procurando ser, conseguindo ser,

sendo muito mais.

 

A alma dos diferentes

é feita de uma luz além.

Sua estrela tem moradas deslumbrantes

que eles guardam para os pouco capazes de

os sentir e entender.

 

Nessas moradas

estão tesouros da ternura humana.

De que só os diferentes são capazes.

Não mexa com o amor de um diferente.

A menos que você seja suficientemente

forte para suportá-lo depois.

Porque é domingo…

Posted by: Lara França on: 24 24UTC Maio 24UTC 2009

PORQUE É DOMINGO…

 

Você acordou cedo hoje, só porque é domingo, e as pessoas estão dormindo e você gosta de fazer seu chá de pêssego com aquelas duas colherinhas de mel, pegar seu livro, aquele que você tem lido aos poucos, seguindo o conselho de alguém: mastigue mais.

Deu uma olhada na rua: ninguém. E sente-se feliz. Ontem foi sábado e você, ao contrário de todos os outros, ficou em casa, deitada no sofá, assistindo um drama terrível, mas que te fez pensar na vida. Então você dormiu antes das 23hs, só pra acordar hoje, domingo, com essa cara de paisagem. Para aproveitar seu dia, lendo, atirada no sofá com seu edredon.

Entre uma história e outra do livro, você pensa. Pensa nas coisas que fez durante a semana, pensa na saudade que sente daquele alguém, pensa que amanhã é segunda (e acha melhor parar de pensar), pensa que tem mil trabalhos da faculdade por fazer, mas sabe que é domingo, e vai deixar pra fazer durante o almoço apertado de segunda. Hoje é domingo, seu dia de descanso.

Domingo não é triste pra você. Ainda mais se estiver assim chovendo, como está agora, e você pode ler, escrever e pensar. Você ouve suas músicas preferidas. Você faz o almoço. Você lava a louça. Arruma seu quarto. Toma um banho demorado. Você sabe que é seu dia. E você fica assim atoa, descansando.

E porque é domingo, você se permite criar histórias, chorar, rir bastante. Porque é domingo, você se dá o direito de comer mais fruta do que deve, e de assistir aqueles programas sobre moda, saúde e outras coisas que ninguém desconfia que você – a intelectual – assista. E você lê suas revistas. Conversa com os amigos. Você se sente bem.

E só porque é domingo, você fica imaginando o que os outros estão fazendo dentro de suas casas: bebendo vinho, assistindo Fantástico, abraçando os filhos, se amando, sentindo-se sozinho. E você vê que o domingo é aquele tempo de não fazer nada, apenas, sentir. E você descobre que é feliz, porque a semana te enche de obstáculos, de dores, de desafios e chega domingo e você encontra em você uma mulher mais forte, mais bonita e cada vez mais próxima do que sonhou.

 

24/05/2009

Amor como antes

Posted by: Lara França on: 23 23UTC Maio 23UTC 2009

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AMOR COMO ANTES

 Ela chegou antes que ele nesse dia. Tirou a roupa, vestiu apenas algo leve, um vestido fresco, rosa e deitou na cama, para ler. Caio Fernando Abreu lhe falava: ‘Sim, deve ter havido uma primeira vez, embora eu não lembre dela, assim como não lembro das outras vezes, também primeiras, logo depois dessa em que nos encontramos completamente despreparados para esse encontro. E digo despreparados porque sei que você não me esperava, da mesma forma como eu não esperava você. Certamente houve, porque tenho a vaga lembrança – e todas as lembranças são vagas, agora -, houve um tempo em que não nos conhecíamos, e esse tempo em que passávamos desconhecidos e insuspeitados um pelo outro, esse tempo sem você eu lembro. Depois, aquela primeira vez e logo após outras e mais outras, tudo nos conduzindo apenas para aquele momento.’. E assim ela ia imergindo nessa sensação de quem conhecia bem aquela maneira de sentir. Ela sabia bem.

Ele chegara, ela ouvira, mas não se mexeu, ficou ali na cama, deitada de costas olhando fixamente para o livro que dizia: ‘Às vezes me espanto e me pergunto como pudemos a tal ponto mergulhar naquilo que estava acontecendo, sem a menor tentativa de resistência. Não porque aquilo fosse terrível, ou porque nos marcasse profundamente ou nos dilacerasse – e talvez tenha sido terrível, sim, é possível, talvez tenha nos marcado profundamente ou nos dilacerado – a verdade é que ainda hesito em dar um nome àquilo que ficou, depois de tudo. Porque alguma coisa ficou.’. Era como se ele estivesse contando uma história conhecida, bem conhecida, era como se fosse ela a personagem dessa história inventada por outro alguém.

Os beijos dele subiam pelas pernas e foi inevitável o arrepio. E perto do ouvido, ele perguntou: ‘ O que você está lendo?’. Ela mostra a capa do livro. Um beijo na nuca. E esse é fatal, ela fica ali paralisada naquele sentimento de tontura, nostalgia, novidade – porque o amor deles é assim: novo a cada dia.

- Lê pra mim.

Ela sorriu. Gostava do jeito doce como compartilhavam essas pequenas coisas.

‘(…) Durante todo o tempo em que pensei, sabia apenas que você vinha todas as tardes, antes. Era tão natural você vir que eu nem sequer esperava ou construía pequenas surpresas para te receber. Não construía nada – sabia o tempo todo disso -, assim como sabia que você vinha completamente em branco para qualquer palavra que fosse dita ou qualquer ato que fosse feito. E muitas vezes, nada era dito ou feito, e nós não nos frustrávamos porque não esperávamos mesmo, realmente, nada. Disso eu sabia o tempo todo.

Ele agora deitado na cama, olhava pra ela com amor. E era assim, ele e ela, na cama. Dividindo essas coisas bobas que tocavam eles tão profundamente. A história deles assim escrito pelas mãos de outros. A história deles, contada em livros, lidos juntos, em músicas compartilhadas, em mensagens trocadas volta e meia.

Ela amava ele ali, olhando pra ela. E ele amava ela, ali, lendo pra ele. Uma simbiose, uma comunicação perfeita, uma sensação de acolhimento e prazer, um sentimento verdadeiro.

‘(…) E nós tínhamos tão pouca experiência disso que falamos e falamos durante muito e muito tempo, e entre inúmeras coisas sem importância você disse que me amava, ou eu disse que te amava – ou talvez os dois tivéssemos dito, da mesma forma como falamos da chuva e de outras coisas pequenas, bobas, insiginificantes. Porque nada modificaria os nossos roteiros. Talvez você tenha me chamado de fatalista, porque eu disse todas as coisas, assim como acredito que você tenha dito todas as coisas – ou pelo menos as que tínhamos no momento.

Era doce esse encontro deles. Eles sabiam que todo o final de tarde estariam ali, um para o outro. Longe dos compromissos, das promessas, das chatices. Estariam ali em segredo, um para o outro. Apenas um do outro. Ele ficava ali, olhando ela, enquanto ela lia. Era o segredo deles.

‘ (…) Além disso, não consigo lembrar mais nada, embora tente desesperadamente acrescentar mais um detalhe, mas sei perfeitamente quando uma lembrança começa a deixar de ser uma lembrança para se tornar uma imaginação. Talvez se eu contasse a alguém acrescentasse ou valorizasse algum detalhe, assim como quem escreve uma história e procura ser interessante – seria bonito dizer, por exemplo, que eu sequei lentamente seus cabelos. Ou que as ruas e as árvores ficaram novas, lavadas depois da chuva. Mas não direi nada a ninguém. E quando penso, não consigo pensar construidamente, acho que ninguém consegue.’.

Era bonito observar os olhos dele acompanhando a boca dela lendo…E ela gostava desse clima, era uma sedução calma e lenta. Era o segredo deles. Ele sairia dali para a terra de nunca mais, mas ela guardaria para sempre aquele olhar longo e profundo que a deixava tão sem jeito. Ela guardaria aquele olhar profundo dentro da noite, aquele olhar que era dele e que no entanto, parecia dela.

 ‘ (…) E que então pensei numas tardes em que você sempre vinha, e numa tarde em especial, não sei quanto tempo faz, e que depois de pensar nessa tarde e nessa chuva e nessa roda-gigante, uma frase ficou rodando nítida e quase dura no meu pensamento. Qualquer coisa assim: depois daquela nossa conversa – depois daquela nossa conversa na chuva, você nunca mais me procurou.

Ele voltaria para a vida dele, longe dela, longe dos beijos quentes, longe dos abraços macios, longe do conto de fadas que ela inventou. Ela sairia para a noite, cega, inquieta, para nada, para si, perdida. Cheia do amor daquele olhar – que ela guardou.

Eles se amavam assim: nas palavras dos livros, na melodia das músicas, nos olhares suspensos, naquele desejo que os mantinha quentes.  Ela queria aquele amor como antes. Queria pra sempre eles, secretos amantes.

 

 

23/05/2009

 

  • Trechos de ‘Do outro lado da tarde’ de Caio Fernando Abreu – in ‘O ovo apunhalado

coisa inusitada

Posted by: Lara França on: 21 21UTC Maio 21UTC 2009

COISA INUSITADA

 

- Boa noite, senhor.

- Boa noite.

- O senhor já escolheu.

- Na verdade, eu gostaria que você me ajudasse.

- Sim, senhor.

- Hoje eu quero algo que me surpreenda. Alguma coisa inusitada, sabe?

- Poderia explicar melhor, senhor?

- Sim. Normalmente, eu peço sempre a mesma coisa, mas hoje, hoje, não. Hoje eu quero algo diferente, quero algo exótico. Algo novo.

- Mas o senhor tem alguma preferência?

- Não sei. O que você indicaria?

- O senhor pode começar pelos orientais.

- Humm..nããão..está muito na moda. Quero algo, assim…que eu nunca ouvi falar.

- Quem sabe, então, os exóticos, como Escamoles?

- Hum..do que é feito?

- É uma formiga, senhor.

- Formiga? Mas eu sei o que é uma formiga..Precisa ser algo assim, inusitado, diferente, entende? Algo novo.

- Koup Luak, senhor? É um dos pratos mais exóticos que temos.

- O nome é bonito. Mas do que se trata?

- Sementes, senhor.

- Sementes? Como feijão, milho…? Nããão. Isso é comum demais.

- Senhor, mas são sementes encontradas nas fezes de gatos herbívoros.

- Gatos herbívoros? Você tem isso no cardápio?

(Deu uma passada de olhos no cardápio).

- Não, senhor. Apenas as sementes.

- Ahh..que pena.

O garçom ficou com um ar de interrogação. É a primeira vez que um cliente quer algo realmente inusitado, exótico, diferente. Há tantos que pedem algo exótico, e, no máximo, se arriscam a um cuzcuz.

- Vou lhe deixar à vontade. Nosso cardápio oferece muitas opções do que há de melhor na culinária mundial.

- Muito obrigado. Darei uma olhada…

Falou, desfazendo-se do garçom.

Folheou o cardápio, de trás pra frente, de frente pra trás. Farofa de iça, Aranhas fritas, lagartas de todos os tipos, sushi, hasmas, enguias…Não era isso. Ele queria mais emoção. Algo inusitado. Algo novo.

Havia saído de casa para isso, para algo que lhe surpreendesse, para algo que estaria lá, sem que ele soubesse, mas que já era, secretamente, desejado.

Desistiu. Fechou o cardápio. Levantou-se da mesa desorientado. Aquele dia estava estranho. Ele, que sempre pedia um peixe qualquer grelhado, uma porção de alguma salada, queria, hoje, um sabor diferente, uma coisa nova. Desconhecida, mas que já se sabe o nome e o gosto… Uma coisa inusitada.

Saiu do restaurante com aquela sensação de vazio. Mas o que será? Esse desejo de algo que não existe, porém, se adivinha a existência secreta e necessária.

Esbarrou em algo, olhou e como num soco aquela ânsia passou.

Ela sorriu.

Ele sorriu.

A coisa inusitada aconteceu.

 

20/05/2009

 

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