Publicado por: Lara França em: 24 24UTC Junho 24UTC 2011
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
Publicado por: Lara França em: 17 17UTC Maio 17UTC 2011

Publicado por: Lara França em: 28 28UTC Dezembro 28UTC 2010
Caio Fernando Abreu
Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de “minha vida’:
Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus — enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mau me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector — Tentação — na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.
Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
O Estado de S. Paulo, 22/4/1986
Publicado por: Lara França em: 20 20UTC Setembro 20UTC 2010
Meu corpo sorriu quando eu te vi
Meu coração tremeu dentro de mim
E só essa lembrança assim,
alegre e secreta,
é que me fez sorrir com o corpo inteiro,
com a alma,
da vida.
Meu corpo sorriu quando eu te vi
e ficou assim, rindo a toa..a toa..
o dia inteiro,
daquela madrugada antiga,
daquelas frases tortas,
daquele beijo doce.
Meu corpo sorriu quando eu te vi
minha boca pediu beijos,
meus pensamentos fizeram planos
da gente ficar junto, logo
agora,
pra sempre.
E não importa muito o cansaço desses dias,
tudo isso,
o que passou e o que virá,
só porque o meu corpo sorriu quando eu te vi.
20.09.10
Publicado por: Lara França em: 27 27UTC Julho 27UTC 2010
Tenho uma predisposição natural para o que dura. Filmes longos, longos romances. Valsas lentas, livros extensos, amizades eternas. Gosto do gosto do que é conhecido e repetitivo. Gosto da rotina. Talvez por isso eu sofra tanto com essa exigência dos dias atuais, de sempre ser outra, sempre estar em mudança, sempre nessa tentativa de adaptação que apenas consome tempo e causa tantas patologias. Sou grata quando as pessoas me poupam desse esforço. Quando permanecem e me deixam permanecer. Quando me encontram no outro dia no mesmo lugar, quando mantêm o mesmíssimo humor, quando continuam com aqueles velhos tiques, velhas manias, velhos sonhos…
Eu, quando o tempo passa, vejo que apesar de tudo ser tão novo, é ainda algo muito familiar. É um sentimento de que tudo ao redor – inclusive as pessoas – seguiu comigo, mudou comigo, esteve comigo nesse processo de mudança (e por isso, talvez, não tenha sido um processo tão difícil). Gosto mesmo é de acordar e dormir no mesmo horário, comer sempre a mesma comida. Não sou do tipo que gosta de experimentar. Sou uma pessoa que não se incomoda com o que é antigo, velho, permanente.
Não é que eu tenha medo da mudança, do novo, até porque isso é inevitável, mas é que eu tenho gosto pelo que vai na contramão. Não tenho vocação pra viver correndo atrás de inovações, atrás da moda que muda a cada dia. Não tenho a mínima vocação para estar sempre alimentando a roda da mudança, sinto muito, mas provavelmente amanhã você vai me ver com o mesmo cabelo liso escuro, o mesmo peso, com a mesma roupa que usei na semana passada, a mesma antiga mania de analisar as coisas… Meu ritmo é lento e respeito a minha natureza.
Talvez, dentro de mim tudo seja agitado, confuso, intenso – e até isso eu conheço tal qual é desde muito tempo. Gosto de conversas longas, gosto de olhares profundos e intensos, gosto de relações que perduram no tempo. Gosto de criar raiz. Não tenho medo de compromisso, de me doar. Não tenho medo do que vai envelhecer comigo, nem dos anos que virão e, embora eu saiba bem que esse mesmo tempo estará estampado na minha face, ainda assim, ao me olhar no espelho, encontrarei algo em mim que foi preservado desde a infância. Eu gosto mesmo é do velho gosto da novidade do que eu já sei de cor: a vida.
Talvez goste tanto da rotina porque não tenho capacidade de inovação. Nunca consegui ser outra. Não tenho vocação para pintar o cabelo da cor da moda, para ir aos lugares só porque todo mundo vai, não tenho vocação nenhuma para a adaptação a meios que exigem de mim uma rapidez de associação e resposta maior do que minha natureza – lentíssima – permite. Gosto de almoçar com minha família todos os dias, de fazer a mesmo almoço nos domingos, de sair nos mesmos horários e de estar com as mesmas pessoas. O que a maioria das pessoas acha chato; eu acho o máximo!
As pessoas confundem mudança com crescimento, confundem movimento com ação. Eu não. Sei que embora minhas amizades durem a 10 anos e meus hábitos não sejam mudados a séculos…certas coisas permanecem enquanto mudam. Assim aconteceu comigo e com a maioria das pessoas. Algumas se aborrecem ao perceber que nada mudou, e isso as causa uma tensão muito grande, mas outras, como eu, gostam de criar um chão sólido para continuar caminhando lentamente…enquanto tudo vai mudando.
04/09/2009
Publicado por: Lara França em: 26 26UTC Julho 26UTC 2010
Publicado por: Lara França em: 12 12UTC Setembro 12UTC 2009
Minha pedra de gelo derretendo
derrama sobre mim teus segredos
proclama meu nome contra o vento
me evita quando necessário
chora pra mim teus lamentos
e sempre, em qualquer tempo,
faz dos meus braços teu alento,
me dá tua mão quando peço,
me oferece teu silêncio…
Faz da tua ausência meu segredo
e, em silêncio, me atiça a paixão.
Aparece em meus sonhos,
faz brotar em mim um sorriso.
Canta pra mim a luz do dia,
me fala de amor e magia,
me dá tua mão, tua vida,
meu pássaro dourado,
não fuja de mim.
10/08/2009
Publicado por: Lara França em: 29 29UTC Agosto 29UTC 2009
Disse sim. E então se calou, como se tivesse dado uma resposta sem muito pensar. Mas afinal, quem pode determinar qual o tempo certo?
Disse sim, e pronto. Sem dor. Sem meio-termos. Sem ‘se’.
Disse sim, de uma forma, enfática, sábia e desafiadora.
Disse sim, como se utilizasse essa palavra como espada, como escudo, como se ao atacar se defendesse.
Disse sim, simplesmente, com significado de sim. Sim para a vida, para o amor e o medo, para o silêncio, para o choro, para o riso.
Disse sim, pra ela mesma, para os desejos, para os erros, para a solidão inerente da sua condição. Disse sim, porque já não aguenta tanto ‘nãos’.
E disse sim, para a espera calma, para o amor em segredo, para a manhã morna dos domingos.
Sim para a mesa posta, para o filme que faz chorar, para o livro que fala sobre morte.
Sim para ele. Sim para todo o contraste entre o branco e o preto.
Sim para a meditação. Disse sim ao meio termo, ao almoço sem sal, ao sonho perturbador, a tensão do dia-a-dia em consciência.
E pensou mais tarde, que por aceitar assim, tão facilmente as coisas da vida, pudesse acabar se arrependendo.
E talvez se arrependesse mais tarde, de não ter dito, de ter aceito o silêncio longo demais.
Talvez, se arrependesse de ter aceito a distância, a separação, a não confissão dos sentimentos.
Mas, afinal, quem poderá saber o caminho certo a seguir?
Ela disse sim. E a vida se abriu como uma flor na primaveira, tão natural e bela, que, às vezes, acreditava que essa sua sintinia com o UNO a faria maior do que é.
E certamente, sentia dentro de si, esse sim, mudando as vírgulas, fechando cicatrizes, adoçando seus espaços amargos, protegendo seus segredos.
Disse sim, como se a vida fosse muito curta para esperas e silêncios. Como se fosse longa demais para a saudade insuportável.
Disse sim, calada. E num abraço, celou com o tempo um acordo intímo.
Disse sim, mais uma vez. Sim para o que vier…
E quem poderá saber o que virá?
29/08/2009
Publicado por: Lara França em: 15 15UTC Agosto 15UTC 2009

HSU*
‘A espera não é uma esperança vazia, possui a certeza interior de alcançar o seu objetivo.’
* Hsu é um Hexagrama do I Ching – significa A ESPERA.
Publicado por: Lara França em: 9 09UTC Agosto 09UTC 2009

Já passava das duas horas da madrugada, ele estava ali, ligado, acesso, inquieto. Precisava dizer a ela, precisava se expor, precisava se arriscar. Pensou mil vezes no que dizer, mas não sabia. O uísque no copo intocado, o cigarro queimando sozinho no cinzeiro. Ele precisava se declarar. Pegou papel e caneta: escreveria agora, já, nesse instante.
‘Meu amor’, e a palavra ‘amor’ lhe doeu cedo demais. ‘Preciso lhe dizer que desde aquele dia, aquele dia em que nos conhecemos sem querer, e eu nem sabia quem você era. Aquele dia, o jeito que me olhava e sorria, tudo naquele dia, me dizia pra te amar. Tua voz era certa, teu gesto era certo, teu sorriso certíssimo!! Tudo conspirando a nosso favor, tudo me dizendo: ame-a. E eu amei, meu amor. Te amei cedo demais sem saber, que você seria minha prisão, minha dor, meu desafio, meu inimigo revelado: você seria meu impossível amor desejado. Mas eu amei, meu amor. Mais do que pude, mais do que devia, entre nossos silêncios e conversas, te amei em cada olhar. Te amei, na vontade louca de tocar a tua mão que estava ali, diante de mim, avulsa, e que eu lutei contra o tempo todo, por não querer quebrar esse desejo inconfessado que sempre me tomou. Te amei, calma e urgentemente. E amando, ainda hoje, te deixo, assim tão quieta, tão sua, na sua vida sem mim. E sigo, ausente de tudo da sua vida, longe, distante do seu sorriso e do seu olhar, amando ainda, amando sempre, amando agora.’
Não conseguiu terminar sem deixar cair uma lágrima. Não conseguiu terminar sem abandonar-se naquele sentimento antigo e novo a cada dia. Não conseguiu terminar com aquele sentimento, não conseguiu dizer nada mais do que pode ser dito… Ele deixou-se chorar, deixou-se sofrer…um amor impossível e nada mais.
09/08/2009